Tornou-se costume entre as famílias de samurais ensinar o filho homem, na véspera de ingressar na vida adulta, o modo exato de se praticar o seppuku. Nem sempre o ritual era seguido à risca com todos os seus detalhes. Em alguns casos extremos como em campos de batalha, onde não havia tempo para tais preparos, o samurai abandonava a vida apenas enfiando a espada em sua barriga.
O ritual deveria ser seguido de maneira calma e sem atrapalhos. Caso fosse um condenado à morte, era mais honroso morrer através do seppuku do que ser morto por meios públicos.
O local para o rito também era considerado de extrema importância. Geralmente era executado em templos shinto, em jardins ou vilas, ou até mesmo dentro de casa. O tamanho da área disponível para o ritual também era relevante.
Embora o rito de suicídio honroso seja deplorado hoje no Japão, não é tratado como fraqueza ou desequilíbrio como é o suicídio para o ocidente. Os japoneses ainda se matam devido a falência empresarial, envolvimento em triângulos amorosos, reprovação em exames colegiais ou universitários, ou seja, a morte ainda é melhor do que a desonra.
O seppuku não era uma prática exclusivamente masculina. Como era uma prática samurai, e algumas mulheres eram samurai, suas obrigações e conceitos de honra era iguais aos dos homens, portanto, o seppuku deveria ser cometido para manter a dignidade ou como prova de fidelidade. Muitas cometiam seppuku quando eram impossibilitadas de cumprir uma obrigação. O seppuku feminino era comum em casos de acompanhar o Senhor ou o marido na morte, mesmo quando este era condenado à própria execução.
No entanto, ao contrário do que muitos pensam, o seppuku só poderia ser feito com autorização do Senhor, de forma que uma mulher não poderia cometer o suicídio honroso sem prévia permissão. Uma outra diferença está na forma litúrgica do rito. Enquanto o homem abria o abdome para mostrar a dignidade e honra de sua alma, a mulher introduzia a lâmina de uma tanto (faca) na garganta ou no coração. Alguns afirmam que isso poderia ser feito também com o adorno de cabelo (palitos adornados utilizados para prender o cabelo).
Diz-se também que a mulher, antes de cometer o seppuku, mantinha suas pernas unidas — amarrando os tornozelos um ao outro — para evitar que na queda se abrissem deselegantemente, expondo suas partes íntimas.
Os suicidas que tomaram parte na história se tornaram lendas e temas para peças Kabuki e ilustrações Ukiyo-e.
Quando Yoshitsune foi cercado no seu último castelo por tropas hostis enviadas pelo próprio irmão, ele matou primeiro sua esposa e filho e depois cometeu seppuku. Isso ocorreu em 1189.
Em 1582, Oda Nobunaga foi forçado a cometer seppuku após um de seus generais, Akechi Mitsuhide, ter tido sucesso numa revolta contra ele.
No entanto, o caso mais espetacular de seppuku na história japonesa é conhecido como “Os 47 Ronin” ou “Os 47 Samurais sem Mestre”. Isso ocorreu em 1701 e 1702.
O Senhor, Asano Naganori, do feudo de Akô, foi forçado a cometer seppuku pelo Shogun, após a um enfurecido e tempestuoso ataque e duelo de espada que resultou em algumas mínimas escoriações. O oponente, Kira Kozukenosuke, provocou o duelo com seu comportamento rude, mas não foi punido.
Em verdade existe uma versão mais aprofundada da normalmente conhecida.
Conta-se que Asano Naganori estava a serviço do Shogun Tokugawa Tsunayoshi para a execução de uma tarefa, e sua primeira instrução era receber orientações de Kira. Nessa versão, Kira Kozukenosuke Yoshinaka, com a intenção de induzi-lo a um erro de etiqueta, o provocou de maneira grosseira. Outra versão conta que Asano não quis pagar o preço exigido por Kira pela instrução, e este nervoso, o empurrara. Asano, para defender a sua honra, atacou-o, não o matando devido à intervenção de terceiros. Segundo as leis que regiam a época, era considerado grave delito contra a autoridade desembainhar a espada em recinto imperial.
Após Asano receber do Shogun uma notificação de que ele deveria praticar o harakiri para pagar pelo seu crime, sem questionar mais nada, o senhor de Akô praticou o seppuku.
Diante dessa situação, os seus vassalos ficaram revoltados. Inicialmente, fizeram de tudo para que o feudo de Akô não fosse confiscado, coisa que geralmente acontecia nesses casos, passando a chefia do clã ao irmão mais novo de Asano.
Mesmo assim, o shogun decretou o confisco das terras de Akô. Com isso, todos os vassalos de Asano tornam-se ronin (samurais sem senhor para servir, desempregados).
Indignados com a morte de seu Senhor, todos os seus samurais se reuniram para saber que decisão seria tomada em relação à injusta ordem de suicídio. Vingar a morte se Asano naquele momento, no entanto, parecia ser estrategicamente impossível. Para que tudo desse certo, conforme planejaram, seriam necessário anos de humilhação e descrédito, uma vez que todos esperavam uma vingança da parte deles. De todos os samurais, 48 mais fiéis aceitaram vingar a morte de Asano, mesmo que isso envolvessem conseqüências extremas, enquanto os outros preferiram manter a honra que lhes restara, renegando a degradação ao considerar esses atos como loucura.
Oishi Kuranosuke Yoshio, líder dos 48 ronin, era um seguidor do escritor do século 17 Yamage Soko (1622-1685), cuja filosofia incluía a adaptação do samurai ao Confucionismo, e pregava que um homem não poderia permitir que o inimigo de seu pai vivesse sob o mesmo céu que ele.
Para pôr em prática a vingança, esses 48 samurai se rebaixaram. Alguns passaram a beber em excesso, outros fizeram de suas esposas prostitutas, outros se tornaram mendigos, enfim... Cometeram todos os atos considerados absurdos para um samurai até que ninguém mais atribuía a eles honra de qualquer espécie. Oishi, em extrema lealdade ao propósito de vingança, permitiu inclusive que sua katana, espada — considerada a alma de um samurai — se enferrujasse.
Um samurai de Satsuma, supostamente, viu Kira bêbado na rua e cuspiu nele, afirmando não ser ele mais um samurai. Aparentemente o caso foi relatado e Kira começou a duvidar que uma vingança aconteceria.
Anos se passaram até que, na data marcada, dia 14 de dezembro de 1702 (Era Genroku), uma fria noite de inverno, eles invadiram o castelo de Kira e dominaram todos os seus guardas, que haviam sido pegos de surpresa. Kira havia se escondido, em vão, em um depósito de carvão. Eles o renderam e o decaptaram com a mesma espada utilizada no Seppuku de Asano. A cabeça de Kira foi levada ao túmulo de Asano, no Templo Budista de Sengaku-ji em Edo.
Depois, 46 deles (um havia morrido antes), se entregaram ao Shogun assumindo o assassinato. O quadragésimo oitavo ronin, embora contra a vontade, foi obrigado a permanecer vivo, pelos companheiros, para contar a história em memória à honra de todos os que morreriam.
Embora tenham sido considerados guerreiros honrados, por terem violado as leis de manter a paz, receberam ordem de cometer seppuku. Todos morreram, incluindo Oishi Kuranosuke e seu filho Chikara, de apenas 18 anos.
Eles foram enterrados ao lado do túmulo de Asano e hoje são muito visitados, pois se tornaram símbolo de orgulho nacional.