Harakiri - O Lado Extremo da Honra (Parte I)

“Viva breve mas gloriosamente. A vida passageira de alguém é apenas uma preparação para a morte. A queda da flor é comovente quanto é bela no galho e no momento final, como feito em cerimônia no ritual de Harakiri, é realmente um momento de verdade”. (Jack Seward's "Hara-Kiri" — TUT 1968 — A Good Introductory Guide.)

Seppuku ou Harakiri é um dos mais intrigantes e fascinantes aspectos do código de honra do samurai (bushido): consiste na obrigação ou dever do samurai de suicidar-se em determinadas situações, ou quando julga ter perdido a sua honra. Significa literalmente "corte estomacal". Esse suicídio ritual também é mais chamado de seppuku, uma forma mais elegante de se dizer a mesma coisa.

O relato mais antigo sobre seppuku data do século 11, quando clãs de famílias poderosas lutaram pela supremacia no Japão feudal, porém, o hábito do suicídio nos campos de batalha para evitar a captura pelas forças inimigas é, certamente, muito mais antigo.

O primeiro harakiri registrado na história data de 1170, quando Minamoto Tametomo, figura quase lendária do clã Minamoto, suicida-se após perder uma batalha contra o também famoso clã dos Taira.

O suicídio ritual tinha grande significado para o povo japonês. Vencendo o medo da morte, o samurai vencia também esse grande enigma da humanidade e destacava-se então das outras classes existentes na época. É esse mesmo espírito do samurai que levaram os pilotos suicidas (kamikaze) a explodirem junto aos seus aviões durante a segunda Guerra Mundial.

Antigamente, a história do Japão revelava que era melhor ter uma vida boa do que uma morte dolorosa. Foi somente após a introdução do Budismo no Japão e seus respectivos conceitos de transitoriedade da natureza da vida e a glória da morte que o desenvolvimento do pensamento desse tipo de rito se tornou possível.

Seppuku era uma demonstração de coragem, honra, lealdade e dignidade quando não cometido por punição ou castigo.

A forma do ritual de seppuku veio, provavelmente, durante o período de guerras civis no séc 15 e 16. Com a unificação final e a pacificação do Japão sobre a liderança de Ieyasu Tokugawa (1543-1616), e com o estabelecimento do Shogunato Tokugawa esse rito passou a não ser oficialmente sustentado. Era proibido inclusive por dois decretos em 1603 e 1663. Mas, a prática continuou a existir indeterminadamente. Foi novamente abolida oficialmente no governo Meiji em 1868.

O Seppuku era considerado um privilégio do samurai ou da nobreza. A história do Japão feudal está recheada de relatos a respeito de inimigos derrotados que eram obrigados a cometer seppuku pelos seus conquistadores. Isso era considerado uma graça, pois o perdedor recebia uma chance de manter a honra.

Se circunstâncias permitissem, o rito de suicídio era executado de maneira formal em seu procedimento. Era comum ter espectadores. O suicida usava um kimono todo branco e, antes do ato final, era esperado dele que escrevesse seu poema de morte, uma prática formal da alta classe social japonesa.

Os motivos para o seppuku eram vários.

  • Era praticado como punição. Assim, era apenas uma forma de execução.
  • Cometido como uma forma de extrema lealdade dirigida a um Senhor falecido ou a um marido. Era uma forma rara. Alguns samurais também se suicidavam ao ver o declínio dos seus senhores, ou mesmo quando estes morriam, como forma de acompanhá-los eternamente e seguir o preceito de que um samurai não serve a mais de um daimyo em sua vida (este tipo de seppuku é chamado tsuifuku).
  • Cometido como expressão de ultimato em relação à discordância com um Senhor. Em um ato de pura lealdade, o samurai chega a se matar para chamar a atenção de seu daimyo a algo de errado que ele venha fazendo, advertendo-o.
  • Cometido em campos de batalhas a fim de se evitar a vergonha de ser capturado pelo inimigo.

O ritual do seppuku era praticado da seguinte forma:

O suicida banhava-se, de forma a purificar o seu corpo e a sua alma e dirigia-se ao local de execução, onde se sentava à maneira oriental (seiza). Pegava então sua espada curta (wakizashi), ou um punhal afiado e posicionava a arma no lado esquerdo do abdôme, cortando a região central do corpo e terminava por puxar a lâmina para cima. Era importante o corte ser no abdômen, pois era considerado o centro do corpo, das emoções e do espírito pelo povo japonês. Assim, o samurai estaria literalmente cortando a sua "alma". Ao acreditarem que essa estava limpa diante de sua honra, mostrava-se sua dignidade.

A morte por evisceração era lenta e dolorosa, e podia levar horas. Apesar disso, o samurai devia mostrar absoluto controle de si mesmo, não podendo dar sinais de dor ou medo.

Ao lado dele ficava um amigo ou parente — o Kaishakunin — que portava uma espada. Era uma espécie de assistente do ritual; se o samurai demonstrava não estar mais suportando a dor, o kaishakunin dava-lhe o golpe de misericórdia, decepando sua cabeça.

Seria considerada imensa falta de respeito, no entanto, se a cabeça do samurai rolasse diante de seus parentes, que geralmente também assistiam à execução. A escolha do Kaishakunin é obviamente muito importante. Era necessário que ele conhecesse profundamente o corte “daki-kubi” para que a cabeça ficasse presa ao corpo e não fosse completamente degolada. Isso garantiria que a face fosse escondida e demonstrava seu grande talento com a katana, removendo inteiramente o estigma da decaptação. Assim, o kaishakunin devia ser um exímio espadachim, pois não poderia falhar em sua atuação. Era uma função considerada honrosa (no entanto muitos samurais não gostavam de serem escolhidos pois essa ocasião não lhe traria fama , e se cometesse um corte errado teria seu nome jogado na lama).

O Jumonji — corte transversal feito no seppuku, poderia estar omisso no rito de colonos, mas os mais nobres o conheciam melhor. A retirada da wakizashi ou a inclinação do pescoço (citada anteriormente) era o sinal era dado para que o Kaishakunin executasse o golpe de misericórdia, finalizando a dor e ajudando a pessoa a se direcionar honrosamente ao mundo dos mortos.